“Quem trabalha no sistema prisional sabe que o Estado nunca garantiu o mínimo necessário para manter as unidades funcionando. Sempre faltou de tudo, desde copos descartáveis até materiais para a manutenção das viaturas”, ressaltou o policial penal e presidente da Associação dos Policiais Penais (Aspen) e ex-deputado estadual, João Batista Pereira de Souza, apontando que “a solução encontrada foi usar o lucro das vendas dos mercadinhos para cobrir essas lacunas, ao mesmo tempo em que se reduzia a entrada descontrolada de sacolas nas visitas, dificultando o tráfico de drogas e celulares”. “Durante muito tempo, isso funcionou. Mas, como em qualquer sistema onde há transações e necessidades, o crime encontrou um jeito de se beneficiar. Foi assim que surgiram as cantinas paralelas”, explicou.
João Batista relata que as facções passaram a comprar produtos na cantina oficial, utilizando familiares de outros presos para driblar o limite de compra por detento, e revende-los dentro das celas a preços abusivos. “Os demais presos eram forçados a comprar desses intermediários sob a justificativa de que o lucro seria destinado à ´causa’ das organizações. Ou seja, o que começou como uma solução para resolver problemas práticos dentro do sistema penitenciário, se transformou em mais uma fonte de renda para fortalecer as atividades das organizações criminosas”, destacou.
“Não vejo como impedir que as organizações burlem as regras de funcionamento dos mercadinhos, usando famílias dos detentos, e dessa forma barrar que os estabelecimentos sejam usados como meio de exploração dos presidiários e fonte de lucro para as facções investirem em atividades criminosas”, analisa João Batista.
“O ponto principal – destaca João Batista, é que os atores envolvidos, Estado e Judiciário, cumpram o papel que lhes cabe. Ao Estado cumprir sua obrigação de fornecer a alimentação e produtos de higiene aos presos, cabendo ao Judiciário fiscalizar e cobrar o cumprimento regular dessa obrigação – e não insistir na manutenção de um comércio que facilita a entrada de toneladas de produtos, muitos deles considerados de luxo, que as facções usam tanto para revender internamente, quanto para cooptar novos integrantes, além da entrada de celulares nos presídios”.
Wendell Galdino Lopes 26/02/2025
Esse é o tipo de opinião que tem de ser vista com carinho porque é a pura realidade.
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